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Esporte traz melhoria de vida para cadeirantes
Posted by Beatriz Botelho
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19:09
Uma quadra poliesportiva, uma bola, cadeiras adaptadas e força de vontade: isso é o necessário para que os cadeirantes que participam do projeto O Esporte na Saúde e na Qualidade de Vida de Pessoas com Paraplegia por Lesão Medular pratiquem basquete. Iniciado em 2007 o projeto tem a parceria dos cursos de Ciências do Esporte e de Fisioterapia da UEL.
“O professor de fisioterapia que trabalhava no HU, Fausto Orsi Medola, entrou em contato com a professora Rosângela Marques Busto, para desenvolverem em conjunto um projeto com pessoas com deficiência, pois só a fisioterapia não estava dando conta de desenvolver as capacidades dos cadeirantes. O esporte adaptado começou com essa intenção de desenvolver a qualidade de vida para pessoas com deficiência. Começou com fisioterapia, na verdade, e com o passar do tempo foi tendo um caráter mais competitivo,” explicou o treinador do time de basquete adaptado da UEL, Manuel Carvalho.
Manu, como é conhecido o treinador, está no quarto ano de Educação Física e é estagiário do projeto há três anos e meio. Ele afirma que depois de um tempo trabalhando com os cadeirantes, ele não os vê como “coitadinhos, que precisam de ajuda”. “Se o atleta não consegue fazer uma atividade, então procuramos alguma coisa que ele consiga fazer e trabalhamos em cima disso,” afirma.
| Treinador Manu e os atletas |
No treino, os atletas mostram a habilidade que têm com a cadeira adaptada: eles se movimentam muito rápido, conseguem girá-la em 360° para dar o drible no adversário e têm muita coordenação, pois ao mesmo tempo em que giram as rodas da cadeira com uma mão, conseguem bater a bola no chão com a outra. Também não faltam para eles pontaria e força nos braços.
Wesley Alves de Almeida, 24 anos, jogador de basquete há dois anos, conta que conheceu o projeto por meio de um amigo numa consulta no HU. “A partir do momento que eu conheci o projeto eu não parei mais de vir,” afirma o atleta de forma entusiasmada.
Cadeirante há quase quatro anos, Neguinho, como é conhecido entre os amigos, conta que, no início, sua maior dificuldade no basquete era a falta resistência. “Eu não tinha força no braço, não sabia nem trocar de cadeira, fazer transferência. Aprendi tudo no basquete.” Apesar da dificuldade no início, Neguinho diz que se adaptou bem e rápido ao esporte e reconhece que sua maior superação foi ter recuperado a auto-estima.
“O esporte mudou minha vida totalmente. Antes eu ficava em casa sem fazer nada, pensando no que seria minha vida em uma cadeira de rodas e não é nada do que eu pensava no começo. O basquete faz parte da minha vida.”
| Wesley (Neguinho) no arremesso |
Também jogador de basquete adaptado Marcos Felipe Nanes Mohr, 18 anos, afirma que conheceu o projeto devido ao amigo Neguinho. Eles se conheciam de Rolândia, cidade onde os dois moram. Eles começaram a conversar e andar juntos depois que sofreram a lesão, até que Marcos ou Marquinhos, como também é chamado pelos amigos, decidiu também participar do projeto. O atleta de 18 anos afirma que no começo foi muito difícil para ele conhecer e se enturmar com o pessoal do basquete. “No primeiro dia foi meio chato, não conhecia ninguém. Mas depois eu conheci e ficou legal,” confessa.
Sair de casa foi outra tarefa difícil para Marquinhos. Ele conta que “não dá vontade de sair de casa, dá muita vergonha”. Ele revela, com timidez, que tem dificuldades até hoje, um ano e meio depois da lesão, para sair e que se sente bem indo para o treino e saindo junto com os amigos do basquete. “Aqui, vamos dizer, é uma família. Quando não tem treino eu fico em casa na internet o dia inteiro e parece que nem passa a hora. Aqui não. Aqui a gente conversa, brinca, marca algum lugar pra ir. Tem vez que saem dois, três ou quatro. Quando a gente está em mais pessoas eu tenho mais coragem de sair de casa,” afirma.
Os dois atletas de Rolândia conseguem transporte gratuito para poderem treinar. Eles vêm para Londrina com a ambulância do TEC (Transporte Emergencial Centralizado) da cidade onde moram às terças e quintas-feiras para o basquete na UEL e às segundas para a fisioterapia no HU.
Outro jogador do basquete adaptado é Rogério Garcia, 30 anos. Ele lesionou a medula em 2005 e ficou praticamente um ano sem sair de casa por causa da vergonha. “Eu não sabia como que era esse mundo. Depois que conheci o basquete eu comecei a sair de casa e vi que tinha várias pessoas em situações até piores do que a minha”, afirma o atleta que completa: “A minha maior superação foi conseguir sair. Eu tinha vergonha de olhar até para o meu colega que passava, mas depois do esporte eu superei tudo.”
Rogério também participa, desde novembro do ano passado, da equipe de halterofilismo. No sábado, dia 16 de abril, ele vai participar do campeonato do Comitê Paraolímpico e pretende levantar de 87 a 92,5 kg. O halterofilista explica que nesta modalidade há também adaptação para os atletas: as mesas, onde eles ficam deitados para erguer os halteres, são mais largas e as pernas dos atletas ficam amarradas com faixas para que o corpo não se movimente.
Juntamente com Rogério, outros quatro cadeirantes, um atleta com pólio e outro amputado participam da equipe de halterofilismo. Rogério diz que não tem se dedicado tanto ao basquete devido ao halter e afirma que ainda não está preparado, mas que futuramente pretende participar das paraolimpíadas na modalidade de halterofilismo.
Para Manu, que acompanha o caso dos atletas desde o início, eles evoluíram bastante. “Eu acompanhei a evolução dos quatro que estão aqui hoje. E o mais legal é que eles não evoluíram só dentro da quadra. Evoluíram na questão do relacionamento, na postura, na forma se portam, tudo isso melhorou. O convívio com pessoas também ficou bem mais fácil.”
Segundo o treinador o projeto também evoluiu conforme o passar do tempo. “No começo fazíamos uma atividade pra conseguir participar dos campeonatos. Esse ano estou pegando um pouquinho mais pesado com eles.”
O time participa de torneios, amistosos e já participou do também do Campeonato Paranaense que, por enquanto, só teve uma edição, pois a Federação está começando a se estruturar. O treinador conta que eles já ficaram em terceiro lugar em três quadrangulares: uma vez no quadrangular de Guarapuava e outra duas vezes em Ponta Grossa.
Manu comenta que o esporte influencia na vida dos atletas justamente nos pontos em que Neguinho, Marquinhos e Rogério destacaram. “Aqui eles passam de uma cadeira pra outra, mas na casa deles é da cama, do sofá, do chão pra cadeira deles. O esporte interfere para que eles ganhem força e condicionamento físico. No começo da lesão a pessoa não sai de casa, fica com vergonha. Vindo aqui, conversando com pessoas que tem os mesmos problemas que eles, então eles conseguem perceber que não é tudo isso que eles pensam. Eles se sentem muito mais livres para fazer o que quiserem. Aqui eles têm muito autonomia, eles cuidam da vida deles e não são dependentes de ninguém,” conclui o treinador.
| Superação |