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Pizza

Posted by Amanda Vaz Tostes on 18:05

Era a noite mais abafada do ano. Me pediu pra escolher onde jantar. Sentou de frente pra parede, de costas pro restaurante, do lado de uma janela. Pedimos uma genérica. Minha fatia já tinha virado farofa quando olhei pro prato dele. Cortava tão bem os pedaços que o recheio ia descer arrumado pelo seu esôfago. Comentei quatro vezes em quatro minutos que ia chover. Mas ele era só aquele sorriso perfeito, controlado, mastigando a pizza e a minha tranquilidade. Trocamos algumas perguntas, conversa de quem não se importa com respostas falsas. Reclamou da minha resistência e fingiu não saber que tudo aquilo era o meu maior grau de ousadia. A pizza acabou, saímos do restaurante e ele tentou me abraçar. Não tinha gente na rua e ia chover, mas eu estava apavorada. Me soltou de leve, desapontado.  Era só deixá-lo em casa e o dia terminaria feliz. Ouviu meu suspiro forte enquanto eu analisava o formato das unhas dele. Finalmente cedi e senti o perfume do chiclete feito de colônia. Eu ri, ele não. Ele insistiu, eu pedi pra ir embora. Abri a janela do carro. Minha cabeça formigava e meus ossos já tinham derretido. Aquela ventania quente e a luz amarelo-ouro dos postes não vieram com trilha sonora. E tudo antes era ficção.

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O melhor banco

Posted by Amanda Vaz Tostes on 11:09 in , , , , ,

Outro dia, peguei o ônibus das seis horas no terminal. Encontrei meu assento preferido vazio. Do lado direito, antes da última porta, numa parte mais alta, na janela. Lá recebo o vento de Apucarana, que me faz tanta falta aqui. De lá posso ver quase todos os outros passageiros, além de quem está na plataforma.
Porque o ônibus não saía, olhei pra minha direita. Lá fora, uma linha de trinta pescoços brilhantes virados pra entrada do terminal. De diferentes dourados, em diferentes alturas, com várias texturas.
Comecei a andar de ônibus tarde: com uns 12 anos. Mesmo assim, já cheguei a embarcar no primeiro ônibus que parou no ponto, sem ter visto o destino. Andava pouco, mas aquelas viagens me faziam sentir alguma coisa de independência e até de dignidade. Me sentia membro daquela massa batalhadora, indo prum cursinho de informática no meio da tarde.
Do ônibus, eu podia reparar nas pessoas, porque estava segura. Os olhos me encarando logo passavam, assim que atingiam o fim da janela. Gostava de adivinhar o que elas traziam nas sacolas, de onde vinham, pra onde iam, com quem falavam no celular, se como se mexiam era mania ou só um tique momentâneo.
Talvez seja essa a origem do meu interesse por jornalismo. Por meio das entrevistas, na pele de repórter, posso olhar dentro dos olhos das pessoas e ouvir as explicações que eu queria. Deve ser por isso que me deu vontade de fotografar cada um daqueles rostos na plataforma do terminal. Por isso que eu achei todos eles lindos. Ou deve ter sido só a luz das seis da tarde.

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