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Pizza
Posted by Amanda Vaz Tostes
on
18:05
Era a noite mais abafada do ano. Me pediu pra escolher
onde jantar. Sentou de frente pra parede, de costas pro restaurante, do lado de uma janela. Pedimos uma
genérica. Minha fatia já tinha virado farofa quando olhei pro prato dele. Cortava
tão bem os pedaços que o recheio ia descer arrumado pelo seu esôfago. Comentei
quatro vezes em quatro minutos que ia chover. Mas ele era só aquele sorriso
perfeito, controlado, mastigando a pizza e a minha tranquilidade. Trocamos
algumas perguntas, conversa de quem não se importa com respostas falsas. Reclamou
da minha resistência e fingiu não saber que tudo aquilo era o meu maior grau de
ousadia. A pizza acabou, saímos do restaurante e ele tentou me abraçar. Não tinha gente na rua e ia chover, mas eu estava apavorada. Me soltou de leve,
desapontado. Era só deixá-lo em
casa e o dia terminaria feliz. Ouviu meu suspiro forte enquanto eu analisava o formato das unhas dele. Finalmente cedi e senti o perfume do chiclete feito de colônia. Eu ri, ele
não. Ele insistiu, eu pedi pra ir embora. Abri a janela do carro. Minha cabeça formigava
e meus ossos já tinham derretido. Aquela ventania quente e a luz amarelo-ouro
dos postes não vieram com trilha sonora. E tudo antes era ficção.
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