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O melhor banco
Outro dia, peguei o ônibus das seis horas no terminal. Encontrei meu assento preferido vazio. Do lado direito, antes da última porta, numa parte mais alta, na janela. Lá recebo o vento de Apucarana, que me faz tanta falta aqui. De lá posso ver quase todos os outros passageiros, além de quem está na plataforma.
Porque o ônibus não saía, olhei pra minha direita. Lá fora, uma linha de trinta pescoços brilhantes virados pra entrada do terminal. De diferentes dourados, em diferentes alturas, com várias texturas.
Comecei a andar de ônibus tarde: com uns 12 anos. Mesmo assim, já cheguei a embarcar no primeiro ônibus que parou no ponto, sem ter visto o destino. Andava pouco, mas aquelas viagens me faziam sentir alguma coisa de independência e até de dignidade. Me sentia membro daquela massa batalhadora, indo prum cursinho de informática no meio da tarde.
Do ônibus, eu podia reparar nas pessoas, porque estava segura. Os olhos me encarando logo passavam, assim que atingiam o fim da janela. Gostava de adivinhar o que elas traziam nas sacolas, de onde vinham, pra onde iam, com quem falavam no celular, se como se mexiam era mania ou só um tique momentâneo.
Talvez seja essa a origem do meu interesse por jornalismo. Por meio das entrevistas, na pele de repórter, posso olhar dentro dos olhos das pessoas e ouvir as explicações que eu queria. Deve ser por isso que me deu vontade de fotografar cada um daqueles rostos na plataforma do terminal. Por isso que eu achei todos eles lindos. Ou deve ter sido só a luz das seis da tarde.
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