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Terreno Pedregoso

Posted by Amanda Vaz Tostes on 05:46


A história contada pela mãe de uma família que fez de um, cem frutos


Não tinha nada. Era só pedreira”. Difícil acreditar na descrição que Luzia Aquino, 52, faz da primeira visão que teve, quando comprou a chácara na região norte de Apucarana, onde mora e trabalha há 23 anos. Cheio de canteiros de flores, de diversas árvores graúdas e com um trecho de mata fechada, o lugar comportou uma mina de extração de cascalho. “Nós compramos aqui porque era um lugar que ninguém queria. As únicas árvores que tinham era esse pé de eucalipto e outro que tem do lado de baixo”.

O marido, Higino, sempre foi apaixonado pela natureza e dedicou grande parte da vida à sua preservação. Assim que mudaram, deram início à recuperação daquela área. O artista plástico fazia pintura e relevo em couro, para a confecção de móveis e de roupas. Filho de imigrantes espanhóis chegados em 1948, herdou o apreço pelo cultivo de plantas ornamentais nativas da Mata Atlântica. Trabalho dividido com Luzia e os filhos Solano, Wiliam e Higino Júnior.

“Além das crianças pequenas, com oito, sete e dez, meu marido estava doente quando compramos aqui. Foi uma fase difícil na minha vida. A gente entrou só com a cara e a coragem”. Moraram em dois outros bairros antes da mudança para a chácara. Começaram a construção da casa e o reflorestamento, com mudas nativas da antiga propriedade. “Chegando aqui, nós plantamos o guapuruvu (árvore que pode chegar a 30 metros e dá cachos com flores amarelas e vistosas). Tá vendo aquela árvore grossa ali? – apontando a planta enorme. Então, era uma mudinha assim, ó. É linda a natureza, sabe? Aqui eu vou fazer um local de meditação. É um lugar importante, porque é onde as crianças vinham aprender a trabalhar. Aqui eles enchiam saquinho, brincavam, se sujavam, atiravam saquinhos um no outro. Só que a gente era tão feliz! Tão feliz e eu não tinha nada. E o pai deles era muito alegre. Fazia palhaçada com eles e eles trabalhavam brincando. O pai deles levantava cedo – eu ficava até brava, antecipa a mãe – acordava as crianças, os três tomavam café, com pão feito em casa - tinha que fazer direto”, lembra, com prazer. “E daí vinha tudo pra cá. E depois era uma hora no chuveiro pra arrancar a sujeira e ir pra escola. Todas as mudas que foram plantadas na chácara foram feitas aqui. Começamos a plantar mais e buscar mudas aonde tivesse. E a gente imaginava uma floresta. Lógico que isso aqui se tornou mesmo, né?” – completou rápido, sorrindo, rodeada de árvores muito altas, verdes e próximas umas das outras.

Durante sete anos, Higino ensinou os meninos a plantar e a cuidar da natureza. Luzia conta que ele sonhava em transformar o lugar num centro de cultura, onde as crianças fizessem artesanato e tivessem um jardim bem bonito. Ele também pretendia construir um casarão para que os filhos trouxessem suas famílias e eles morassem todos juntos, “como num castelo espanhol”, lembra Luzia. A casa é pequena, tem o formato de vírgula, paredes grossas e portas e janelas em arco. Em várias partes faltam reboco, tinta e até pedaços da laje.“Até hoje a gente não terminou essa casa. Por falta de dinheiro, mesmo. Um dia eu termino. Não precisa ser um castelo – ri -, mas o básico pra viver em paz. Essas pedras do muro perto de casa foram todas trazidas pelo Higino. Ele era meio maluco, cabeça de artista, sabe?” – Luzia diz rindo e dispara, mostrando a parte exterior da casa: “Quero fazer um forno à lenha. O canil tá desativado porque eu viajo muito. Esse pé de abacate nasceu com o caroço da fruta que eu comi. Aquela flor vermelha ali é uma espécie de eucalipto australiano.”

Para falar do interior, Luzia se esconde. Sob um teto bem alto, entre peças de ferro que o marido colecionava, estão pés de máquinas de costura e um moinho de mesa com mais de 150 anos. Espalhados, quadros, esculturas e móveis feitos pelo artesão decoram o lar. “Minha casa é cheia de teto caído. Porque umedeceu, né. Quando eu vim pra cá, eu cutuquei, derrubei até não querer mais pra parar de cair. Porque senão, ia cair em cima de mim e minha neta tinha medo de entrar. Queria montar um albergue pra todo mundo vir dormir aqui. Eu não reclamo de ter minha casa desse jeito. É uma coisa de luta mesmo, eu fazia bolsas com a minha cunhada até três, quatro horas da manhã e o meu marido fazia uns trabalhos no couro.” Um baú grande, feito com esse couro marcado guarda mil coisas, entre elas, diários de Higino e uma bolsa que um dos filhos viu na rua e pediu pra comprar, porque era do pai dele. “Esses dias eu fui na casa de uma mulher e... me arrepiou todinha – mostrando a pele do braço e embargando a voz... cheguei lá, um jogo de cadeiras, a coisa mais linda do mundo! E era o pai deles que tinha feito. É uma coisa que não pode deixar morrer”, Luzia diz, convicta.

Em 1996, com 47 anos, Higino ficou mais doente e morreu. “Ficaram eu e as crianças, daí, ficou como se a gente tivesse num barco sem remo. O primeiro ano foi difícil, mas conseguimos passar. Daí, no segundo ano, meu filho mais velho ficou doente. Depressão. Aí, decidi que eu tinha que fazer alguma coisa. Eu não podia trabalhar fora. Eles não podiam trabalhar. A gente ficou envolvido ali, naquela coisa difícil. Pensei: Nossa, tinha umas plantinhas ali – a voz falhando, um suspiro, uma pausa - aí eu peguei e falei assim pra eles: Ó – Luzia não diz, engole as palavras e retoma a conversa, tentando explicar - não tinha nada pra comer, imagina você num dia de domingo – mais uma pausa - aí eu falei : Não! Vou fazer alguma coisa! Catei as mudinhas de pingo-de-ouro, catei muda de palmito. Aí, batendo de casa em casa, vendia. Fiz seis reais, passei lá, comprei arroz, feijão, farinha, café, leite. Durou até terça-feira. Nisso veio um senhor que viu as mudinhas e começou a comprar. E a partir desse dia, tem que ter atitude – explica - , a partir desse dia as coisas foram deslanchando. Meu filho já tava bem melhor. Só que pra isso, passaram anos. Só que foi tão rápido. Tudo por causa da natureza”.

“Eu tinha um canteiro, pra você ter uma ideia, de pingo-de-ouro, aquele amarelinho... que dava uns dois metros de comprimento por um metro de largura. Tinham 100 mudinhas ali. Aí, eu pegava aquelas mudinhas e tinha um soldado que sempre vinha aqui, passava e pegava umas mudinhas. Aquilo lá era pra comprar comida.”

“Daí os meninos começaram a trabalhar. Meu menor tinha 14 anos e ele e meu sobrinho saíam pra fazer jardim. Eles já carregaram enxada, cavadeira, dentro do ônibus. Tem coisa que quando eu lembro, dói. Mas eles não eram tristes não, não tinham vergonha. Estudavam em colégio particular. Eu andava com sandália de plástico, mas pagava o colégio. Eu e meu marido pagava o colégio porque a gente achava que tinha que ter uma boa educação. Então as professoras começaram a mandar gente pra fazer jardim e começamos a trabalhar com plantas”. Em 1994, Solano, com 14 anos, começou uma campanha de plantio de espécies ameaçadas em garrafas pets, que chamava “Campanha Bromélia Esperança”. Foram arrecadadas cerca de 10 mil garrafas, onde que ele e os irmãos plantaram mudas que depois foram doadas. “Ele semeava, tampava e todo dia quando ele chegava da escola - era uma oração, diz Luzia, sem esconder o orgulho - ia lá e aguava uma por uma”.

Para cada canto, Luzia tem uma ideia nova. Bancos com espantador de mosquito, mais vasos e flores mais coloridas. “Quero fazer isso porque o pai dos meus filhos morreu, mas deixou uma semente. ‘É só regar’, ele falava. Porque isso aqui é nosso, mas o dia que eu morrer, se meus filhos não quiserem isso daqui, eles não podem vender. Eles têm que doar pra uma instituição. Já foi feito um documento pra isso. Ele tinha medo de meus filhos ficarem sem ter onde morar. Acho que é porque ele sofreu muito. Sabe o que é ter tudo e depois não ter nada? E aí ele não sabia trabalhar. Eu não tinha dinheiro pra comprar nem uma lata de óleo. Um dia eu tava tão desesperada aqui, que eu pensava: Meu Deus, que que eu vou fazer? Não tenho dinheiro. Não posso sair trabalhar pra fazer nada. O que eu sabia era vender. Vender qualquer coisa que me dessem. Hoje eu não faço isso, mas se precisar, eu faço.”

“Mas um dia... você tá vendo um plástico ali? Ali, grudado na árvore?” - apontando para uma árvore de quase 15 metros – “Eu vim, sentei aqui”. – num muro de cascalho, de frente pra mata – “O Solano, meu filho, fazia muda do galho disso aqui. E eu tava desesperada. E daí, eu tava sentada aqui, sentei bem aqui. E eu tava chorando, pensando no que eu ia fazer. Tava seco, a gente não tinha irrigação. Fui na prefeitura pra ver se eles arrumavam irrigação, que depois eu pagava. E eles fizeram descaso de mim” – uma ponta de amargura ao falar. “Daí eu fiquei chorando e pensando, não preciso de ninguém, não. Fiquei sentada, olhando a árvore. Vi que meu filho tinha tirado uma muda da árvore. Daí, de repente, onde ele tirou tava brotando um galhinho. Aí eu relacionei uma coisa com a outra e pensei: Nossa, mas Deus é tão bom! Deus te dá tudo de graça. Aí eu prometi pra mim mesma, que não ia reclamar nunca mais. Levantei e senti uma energia tão grande daqui e comecei a trabalhar. Deus me deu o que eu mais pedia, que era a saúde do meu filho. Lógico que, com muito trabalho, tomando remédios, ele sarou. Foi tudo através da natureza. Nós, somos natureza.” Luzia andava pela propriedade, apontando cada flor, admirada pela beleza das plantas. “Aqui vou limpar tudo, vou fazer uma trilha, porque eu quero plantar bastante coisa. Aqui tem um pé de gabiroba, um pé de cravo.”, diz correndo os olhos cheios pela chácara. Hoje, ela vive da venda das mudas para reflorestamento e trabalha com plantas ornamentais mais por prazer do que por dinheiro.

Em 2006, os filhos de Luzia criaram o IBF – Instituto Brasileiro de Florestas, uma associação sem fins econômicos que apóia o reflorestamento e a proteção de florestas nativas. Montada com o patrocínio de empresas privadas e com o dinheiro da venda de mudas, a organização tem um escritório em Londrina. A base do instituto está localizada na chácara de Luzia, em Apucarana, cidade que tem o maior número de nascentes do estado. O terreno é menor do que um alqueire, tem 15 000 m². São mais de 100 espécies nativas, o maior número do Brasil. E a maior produção também. Luzia conta que tinha época que saíam de lá duas cargas de 100 mil, 150 mil mudas por semana e que a produção anual é de 1 milhão de unidades. As principais clientes são usinas. A raiz do IBF tá ali naquela mata, os ramos é que foram se abrindo”, completa Luzia.


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Esporte traz melhoria de vida para cadeirantes

Posted by Beatriz Botelho on 19:09
Uma quadra poliesportiva, uma bola, cadeiras adaptadas e força de vontade: isso é o necessário para que os cadeirantes que participam do projeto O Esporte na Saúde e na Qualidade de Vida de Pessoas com Paraplegia por Lesão Medular pratiquem basquete. Iniciado em 2007 o projeto tem a parceria dos cursos de Ciências do Esporte e de Fisioterapia da UEL.

“O professor de fisioterapia que trabalhava no HU, Fausto Orsi Medola, entrou em contato com a professora Rosângela Marques Busto, para desenvolverem em conjunto um projeto com pessoas com deficiência, pois só a fisioterapia não estava dando conta de desenvolver as capacidades dos cadeirantes. O esporte adaptado começou com essa intenção de desenvolver a qualidade de vida para pessoas com deficiência. Começou com fisioterapia, na verdade, e com o passar do tempo foi tendo um caráter mais competitivo,” explicou o treinador do time de basquete adaptado da UEL, Manuel Carvalho.

Manu, como é conhecido o treinador, está no quarto ano de Educação Física e é estagiário do projeto há três anos e meio. Ele afirma que depois de um tempo trabalhando com os cadeirantes, ele não os vê como “coitadinhos, que precisam de ajuda”. “Se o atleta não consegue fazer uma atividade, então procuramos alguma coisa que ele consiga fazer e trabalhamos em cima disso,” afirma.
Treinador Manu e os atletas

No treino, os atletas mostram a habilidade que têm com a cadeira adaptada: eles se movimentam muito rápido, conseguem girá-la em 360° para dar o drible no adversário e têm muita coordenação, pois ao mesmo tempo em que giram as rodas da cadeira com uma mão, conseguem bater a bola no chão com a outra. Também não faltam para eles pontaria e força nos braços.

Wesley Alves de Almeida, 24 anos, jogador de basquete há dois anos, conta que conheceu o projeto por meio de um amigo numa consulta no HU. “A partir do momento que eu conheci o projeto eu não parei mais de vir,” afirma o atleta de forma entusiasmada.

Cadeirante há quase quatro anos, Neguinho, como é conhecido entre os amigos, conta que, no início, sua maior dificuldade no basquete era a falta resistência. “Eu não tinha força no braço, não sabia nem trocar de cadeira, fazer transferência. Aprendi tudo no basquete.” Apesar da dificuldade no início, Neguinho diz que se adaptou bem e rápido ao esporte e reconhece que sua maior superação foi ter recuperado a auto-estima.

“O esporte mudou minha vida totalmente. Antes eu ficava em casa sem fazer nada, pensando no que seria minha vida em uma cadeira de rodas e não é nada do que eu pensava no começo. O basquete faz parte da minha vida.”

Wesley (Neguinho)  no arremesso

Também jogador de basquete adaptado Marcos Felipe Nanes Mohr, 18 anos, afirma que conheceu o projeto devido ao amigo Neguinho. Eles se conheciam de Rolândia, cidade onde os dois moram.   Eles começaram a conversar e andar juntos depois que sofreram a lesão, até que Marcos ou Marquinhos, como também é chamado pelos amigos, decidiu também participar do projeto. O atleta de 18 anos afirma que no começo foi muito difícil para ele conhecer e se enturmar com o pessoal do basquete. “No primeiro dia foi meio chato, não conhecia ninguém. Mas depois eu conheci e ficou legal,” confessa.

Sair de casa foi outra tarefa difícil para Marquinhos. Ele conta que “não dá vontade de sair de casa, dá muita vergonha”. Ele revela, com timidez, que tem dificuldades até hoje, um ano e meio depois da lesão, para sair e que se sente bem indo para o treino e saindo junto com os amigos do basquete. “Aqui, vamos dizer, é uma família. Quando não tem treino eu fico em casa na internet o dia inteiro e parece que nem passa a hora. Aqui não. Aqui a gente conversa, brinca, marca algum lugar pra ir. Tem vez que saem dois, três ou quatro. Quando a gente está em mais pessoas eu tenho mais coragem de sair de casa,” afirma.

Os dois atletas de Rolândia conseguem transporte gratuito para poderem treinar. Eles vêm para Londrina com a ambulância do TEC (Transporte Emergencial Centralizado) da cidade onde moram às terças e quintas-feiras para o basquete na UEL e às segundas para a fisioterapia no HU.

Outro jogador do basquete adaptado é Rogério Garcia, 30 anos. Ele lesionou a medula em 2005 e ficou praticamente um ano sem sair de casa por causa da vergonha. “Eu não sabia como que era esse mundo. Depois que conheci o basquete eu comecei a sair de casa e vi que tinha várias pessoas em situações até piores do que a minha”, afirma o atleta que completa: “A minha maior superação foi conseguir sair. Eu tinha vergonha de olhar até para o meu colega que passava, mas depois do esporte eu superei tudo.”

Rogério também participa, desde novembro do ano passado, da equipe de halterofilismo. No sábado, dia 16 de abril, ele vai participar do campeonato do Comitê Paraolímpico e pretende levantar de 87 a 92,5 kg. O halterofilista explica que nesta modalidade há também adaptação para os atletas: as mesas, onde eles ficam deitados para erguer os halteres, são mais largas e as pernas dos atletas ficam amarradas com faixas para que o corpo não se movimente.

Juntamente com Rogério, outros quatro cadeirantes, um atleta com pólio e outro amputado participam da equipe de halterofilismo. Rogério diz que não tem se dedicado tanto ao basquete devido ao halter e afirma que ainda não está preparado, mas que futuramente pretende participar das paraolimpíadas na modalidade de halterofilismo.

Para Manu, que acompanha o caso dos atletas desde o início, eles evoluíram bastante.  “Eu acompanhei a evolução dos quatro que estão aqui hoje. E o mais legal é que eles não evoluíram só dentro da quadra. Evoluíram na questão do relacionamento, na postura, na forma  se portam, tudo isso melhorou. O convívio com pessoas também ficou bem mais fácil.”

Segundo o treinador o projeto também evoluiu conforme o passar do tempo. “No começo fazíamos uma atividade pra conseguir participar dos campeonatos. Esse ano estou pegando um pouquinho mais pesado com eles.”

O time participa de torneios, amistosos e já participou do também do Campeonato Paranaense que, por enquanto, só teve uma edição, pois a Federação está começando a se estruturar. O treinador conta que eles já ficaram em terceiro lugar em três quadrangulares: uma vez no quadrangular de Guarapuava e outra duas vezes em Ponta Grossa.

Manu comenta que o esporte influencia na vida dos atletas justamente nos pontos em que Neguinho, Marquinhos e Rogério destacaram.  “Aqui eles passam de uma cadeira pra outra, mas na casa deles é da cama, do sofá, do chão pra cadeira deles. O esporte interfere para que eles ganhem força e condicionamento físico. No começo da lesão a pessoa não sai de casa, fica com vergonha. Vindo aqui, conversando com pessoas que tem os mesmos problemas que eles, então eles conseguem perceber que não é tudo isso que eles pensam. Eles se sentem muito mais livres para fazer o que quiserem. Aqui eles têm muito autonomia, eles cuidam da vida deles e não são dependentes de ninguém,” conclui o treinador. 
Superação



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Parabéns!

Posted by Amanda Vaz Tostes on 18:07

É meu aniversário e posso fazer um pedido. Vou fazer três, porque devo ter alguns não gastos.

Me deixa falar pra mim viver sem perder autoridade no que sei

Me deixa ser gente boa e não menos feliz que os crentes em Deus

Me deixa chorar vendo gente morrendo a pontapés porque é gay

Aí sim vou ter alguma felicidade nesta data querida.

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O que você perdeu no noticiário

Ao jornalista é creditado o poder de contar o que acontece fora do alcance dos nossos olhos. Não dar voz às diferentes versões de uma história deveria receber punição por desrespeito aos direitos humanos.

Durante a Guerra do Golfo, a CNN fez transmissões em tempo real, com alcance planetário. A cobertura inédita foi amplamente divulgada, inclusive no Brasil. Contudo, essa influência não veio acompanhada de responsabilidade. A “guerra sem sangue” proclamada pela rede de televisão teve pelo menos 150 mil mortos.


Depois do atentado ao World Trade Center, em setembro de 2001, o mundo passou a ver árabes e muçulmanos com desconfiança e até desprezo. Tortura foi reconsiderada. Adultos, crianças e velhos foram - e são - humilhados porque a mídia não fez o trabalho dela.


Jornais e revistas compraram a versão – até então não comprovada - do presidente norte-americano de que o atentado às torres gêmeas tinha autoria de terroristas árabes. Os veículos de comunicação promoveram a falsa idéia de que árabe, muçulmano e terrorista são sinônimos. Assim, a invasão do Afeganistão e a do Iraque foram legitimadas pela mídia, por meio de jogos de palavras que pouco diziam sobre realidade histórica daquela região.


A questão palestina foi vendida como uma guerra na qual o lado do bem, representado por Israel e pelos Estados Unidos, tem de lidar com os ferozes invasores palestinos. Essa versão é um consenso no Ocidente graças à submissão dos comunicadores a megaempresários, tais como presidente Bush, que tinha grande interesse no petróleo iraquiano.


A tentativa de golpe no governo de Hugo Chávez foi arquitetada com ajuda dos EUA. Grupos jornalísticos da Europa e do Brasil chegaram a publicar e comemorar a renúncia do líder venezuelano. Logo depois do incidente, Chávez foi aclamado com aprovação popular superior aos outros países da América Latina.


O MST é outra vítima da corrupção midiática. A grande imprensa comumente classifica como vandalismo as ações do Movimento. Porque essa é a abordagem que agrada as elites.

Cuidado com a próxima edição do jornal. Ser jornalista
é poder demais e está sem regulamentação.



Leia isso aqui e "O Jornalismo Canalha - A promíscua relação entre a mídia e o poder", de José Arbex Jr.

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Quintal

Posted by Amanda Vaz Tostes on 12:26 in , , , ,



vende-se a minha casa


passei em frente à casa nova
e o que me doeu foi ver o quintal
ou a ausência de um

como vou sentir falta de olhar as flores
de ouvir passarinho
de beber água sem lembrar que é da torneira
de respirar fundo o ar da chácara
da catedral iluminando um pontinho do horizonte
vista da varanda

que falta vou sentir
da janela do meu quarto
a única que abre pro jardim de inverno
pra revelar meu camarote pra ver o céu enquanto o sono não vem

a casa que tem uns 12 dos meus 21 anos solares
ela que tem o valor daquilo que se leva no bolso interno do casaco
e que nos deixa mais perto da felicidade só porque sabemos que está ali
ouvindo diástole e sístole
seguro
junto do corpo




Veja um jardim como esse do Monet aqui.

Assista ao filme Casa de Areia e Névoa. Trailer aqui - drama que o momento pede.

Conheça o trabalho do incrível Burle Marx.

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Diz que deu, diz que dá, diz que Deus dará

Posted by Amanda Vaz Tostes on 03:30 in

Deus é um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado
Me botar cabreiro
Na barriga da miséria
Eu nasci brasileiro
Eu sou do Rio de Janeiro

Diz que deu
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, oh nega
E se Deus não dar
Como é que vai ficar, oh, nega?
"à Deus dará" , "à Deus dará"

Diz que deu
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, oh nega
E se Deus negar
eu vou me indignar e chega
Deus dará , Deus dará

Jesus Cristo ainda me paga
Um dia ainda me explica
Como é que pôs no mundo
Essa pobre titica
Vou correr o mundo afora
Dar uma canjica
Que é pra ver se alguém se embala
Ao ronco da cuíca
Um abraço pra aquele que fica, meu irmão

Deus me deu mãos de veludo
Prá fazer carícia
Deus me deu muitas saudades
E muita preguiça
Deus me deu pernas compridas
E muita malícia
Pra correr atrás de bola
E fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia

Deus me fez um cara fraco
desdentado e feio
Pele e osso, simplesmente
Quase sem recheio
Mas se alguém me desafia
E bota a mãe no meio
Eu dou porrada a três por quatro
E nem me despenteio
Porque eu já tô de saco cheio.


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12 de janeiro, o dia da saudade

Posted by Beatriz Botelho on 18:18
 Hoje faz 6 anos que meu pai morreu e isso é tão triste. Não digo pela morte, acho que ela foi a solução para o sofrimento do meu pai. Digo pela ausência que fica quando se perde uma pessoa que você ama, ainda mais o pai, a figura masculina da casa, ao qual se respeita e se admira.

Perdi meu pai quando tinha 14 anos. Não tive tempo de conhecê-lo por inteiro. Talvez o que tinha dele era somente a figura do pai “bravo e inatingível” e por isso o respeito que tinha por ele era mais por medo do que por consideração. Tinha que sempre chamá-lo de “senhor” (usar o “você” para falar com ele era uma ofensa) e pedir “benção” toda noite.  Queria ter conhecido o pai “amigo, companheiro, presente” sem medo, sem receio. Mas faltou tempo.

Queria que hoje ele visse a mulher que eu me tornei. Não sou mais a “Bibi” que ele via andar à cavalo no sítio aos domingos... Queria que ele tivesse participado dos meus 15 e 18 anos e das minhas conquistas nos vestibulares. Queria que tivesse sido o primeiro a dar uma volta de carro comigo depois que consegui minha carteira de motorista e que ele tivesse cantado as modas de viola que ele tanto gostava enquanto eu tocasse o violão. Queria que ele visse a sua futura jornalista, que não vai mais ao sítio e nem anda mais à cavalo.

Seis anos já se passaram. Já me conformei com a ausência do meu pai, mas sinto muita falta dele: do abraço, do sorriso, do jeito bruto das brincadeiras e até mesmo das broncas. Ai que saudade de ouvir ele me chamando de Bibi... Saudades de ver a blusa bordô, a calça jeans, a botina, o chapeu, o bigode, a barriga. Como o senhor faz falta, pai!
Papai e Bibi

Lembro que no meu aniversário, último que ele passou comigo, ele me abraçou e falou assim: “É fia, desculpa, o pai não comprou presente pra você.” E eu respondi: “Não tem problema, pai, meu presente é que o senhor fique bem logo. Tenho certeza que ele ficou e está muito melhor agora. Só queria ter tido mais tempo para demonstrar o meu amor por ele. Mas hoje, seis anos depois, eu tenho a certeza que esse amor que eu tenho por ele é muito maior e que a saudade é maneira de fazer com que ele aumente.

Te amo, pai! E isso é eterno.



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